Som e Luz: o que o cérebro autista sente quando o mundo fica barulhento e brilhante 

1. Final de ano: o tempo em que o mundo fica mais barulhento e mais iluminado  

O final de ano é um momento de festas, fogos, músicas e luzes coloridas. 

Mas para muitas pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse período pode se transformar em um grande desafio sensorial. 

Barulhos que parecem comuns — como o som de fogos, microfones, ou músicas repetitivas — podem causar dor real, crises, desorganização e até colapsos. 

Do mesmo modo, luzes piscantes, intensas e rápidas — típicas de enfeites natalinos — podem provocar mal-estar visual, tontura, náusea e desconforto ocular.  

Essas reações têm explicações médicas e neurológicas claras, ligadas ao funcionamento do sistema auditivo e do sistema visual. 

2. O ouvido autista: quando o som chega mais forte do que deveria  

A hiperacusia é o termo técnico usado para descrever a intolerância a sons de intensidade moderada ou alta. 

Em pessoas com TEA, isso acontece porque o cérebro processa o som de forma amplificada — como se o volume do mundo estivesse sempre aumentado. 

Onde está o problema? 

O som percorre o ouvido até chegar ao córtex auditivo, no lobo temporal do cérebro. 

Mas, antes disso, ele passa por uma estrutura chamada núcleo coclear e pelo colículo inferior, que ajudam a regular o ganho auditivo — isto é, o quanto o som será amplificado. 

Em pessoas com autismo, estudos mostram hiperatividade nessa via auditiva central e uma falha nos mecanismos de inibição neural. 

Isso faz com que o som “entre” mais forte, gerando: 

  • dor física ou pressão no ouvido; 
  • susto ou reações de fuga; 
  • dificuldade de concentração e fala; 
  • reações emocionais desproporcionais.

Em resumo: 

O problema não está na orelha externa ou média, mas no cérebro, especialmente nas vias auditivas centrais e no sistema límbico (amígdala), que processa emoções como medo e ansiedade. 

3. O olho autista: quando o brilho dói 

O mesmo princípio ocorre com a visão. 

Muitos autistas apresentam hipersensibilidade visual, reagindo mal a luzes piscantes, muito fortes, fluorescentes ou intermitentes. 

Onde está o problema?  

O estímulo visual entra pela retina e segue até o córtex occipital, responsável por interpretar o que se vê. 

No autismo, há alterações na sincronia neural entre o tálamo e o córtex visual, o que causa excesso de estímulos visuais processados de forma não filtrada. 

Por Dra. Elizabeth Crepaldi – Fonoaudióloga | Especialista em Audiologia e Análise do Comportamento | Doutora em Educação 

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