A importância de ler para a criança: leitura de imagens, memória e desenvolvimento verbal

Ler para a criança é muito mais do que apresentar palavras escritas. No início do desenvolvimento, a leitura acontece, apesar de tudo, por meio das figuras, fotos e imagens, que funcionam como mediadores fundamentais da memória, da linguagem e da construção de significado.

Quando o adulto lê mostrando aquilo que viveu, aquilo que participou ou os lugares onde esteve — especialmente por meio de fotos e imagens reais —, ele ativa não apenas processos cognitivos, mas também processos de memória afetiva. A criança passa a organizar suas experiências a partir de narrativas visuais que fazem sentido para ela, porque estão conectadas à sua própria história.

Costuma-se dizer que “crianças pequenas não lembram de viagens” ou de experiências passadas. No entanto, elas lembram sim — desde que exista mediação verbal. A memória não se organiza sozinha: ela precisa ser construída por meio da linguagem. É a leitura das figuras, das fotos e das cenas vividas que transforma a experiência em memória narrável.

Do ponto de vista da Análise do Comportamento, esse processo é fundamental porque envolve diretamente os principais operantes verbais: o tato, ao nomear pessoas, lugares e ações; o mando, ao solicitar que o adulto conte, mostre ou repita; e o intraverbal, ao responder perguntas sobre o que aconteceu, quem estava lá, o que veio antes e depois.

Para que esses operantes se desenvolvam de forma funcional, a criança precisa se envolver em episódios verbais sob controle temático, ou seja, conversas organizadas em torno de um tema com sentido. Isso só acontece quando há motivação, vínculo e relevância pessoal — exatamente o que ocorre quando se lê sobre a própria vida da criança.

A leitura de imagens, portanto, não é apenas um recurso pedagógico, mas um dispositivo estruturante da memória, da conversação e da linguagem funcional. É nesse processo que se desenvolvem também as habilidades básicas de diálogo: manter tema, alternar turnos, responder perguntas, relatar eventos e construir narrativas.

Autora:
Dra. Elizabeth Crepaldi
Fonoaudióloga – CRFa 3331-2
Analista do Comportamento – QBA #18848
Doutora em Educação – Psicologia Educacional (UNICAMP)
Supervisora Clínica em Autismo e ABA
Interclínicas – Centro do Autismo

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