Agora eu não sei se é por ser mulher ou por se chamar Maria, que também é o nome da minha mãe, mas, brincadeiras à parte, a Maria Malott é, para mim, um dos maiores exemplos contemporâneos da aplicação real da OBM.
A Malott não fala de OBM como teoria. Ela faz OBM acontecer. Implementa indicadores, constrói sistemas de mensuração, define quais são os indicadores relevantes, e a partir deles toma decisões que reduzem custo, melhoram processos e ampliam acesso.
E, na nossa área, que é a área do autismo, isso é absolutamente central: acesso de verdade. Não acesso de carga horária, mas acesso de desenvolvimento. Acesso que leva à autonomia, à funcionalidade e a uma vida real, e não apenas à ocupação de agenda.
Quando a gente fala de indicadores, a gente não está falando de números vazios. A gente está falando de responder perguntas muito concretas: quantas crianças estão evoluindo de fato? Quantas estão ganhando repertórios funcionais? Quantas estão se tornando mais independentes?
Como isso muda o sentido da gestão
A própria ideia de formar estagiários em OBM, por exemplo, é algo que nós nunca fizemos de forma sistemática, mas que talvez precise começar a ser feito. Formar pessoas capazes de tomar decisões baseadas em dados, de olhar para processos, de analisar sistemas e não apenas indivíduos.
A Malott demonstra, na prática, que OBM não é para livros. OBM é tecnologia de governança organizacional. É ciência aplicada ao comportamento humano. É engenharia de sistemas sociais.
OBM é tomada de decisão baseada em dados. É ferramenta de transformação social. E quando ela é transformação social, ela necessariamente está comprometida com ética, com segurança e com autonomia.
Indicadores, ética e transformação real
O mais interessante é perceber que os princípios que estavam lá nos anos 1960 continuam exatamente os mesmos: análise funcional, síntese dos sistemas, teste empírico e ajustes contínuos.
Só que sempre falta uma peça.
É como se a gente estivesse jogando um jogo de quatro peças e uma delas sempre estivesse incompleta. Às vezes falta a peça das políticas externas. Às vezes falta a peça da política interna. Às vezes falta a peça da economia. Às vezes falta a peça do momento histórico.
E isso nunca vai deixar de acontecer.
A diferença é que hoje a OBM não se aplica mais só a indivíduos. Ela se aplica a equipes, a empresas, a redes, a cadeias produtivas, a políticas públicas e a impactos sociais.
Por isso, eu prefiro pensar que a OBM não pode depender de escolha pessoal. Não pode se perder em modismos, em construtos abstratos, em autorrelato ou em discursos bonitos.
Isso não é ciência.
Gestão também é ciência. E ciência é baseada em dados, em comportamento real, em mensuração objetiva e em ajuste contínuo.
Para a OBM sobreviver como campo, ela precisa se manter dentro desse empirismo radical: ser clara, objetiva, com comportamentos operacionalizados, com compromisso ético, com compromisso com a segurança e com desempenho real.
Sem isso, ela vira discurso. E discurso não transforma sistema.
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Texto elaborado a partir da experiência institucional da Interclínicas e da prática profissional da autora em gestão, supervisão clínica e desenvolvimento organizacional.
