O desenvolvimento da linguagem não começa na fala propriamente dita. Antes que a criança consiga nomear objetos ou expressar desejos verbalmente, ela percorre uma série de etapas fundamentais, entre elas o brincar, a atenção compartilhada e a imitação.
Pensando nisso, a Interclínicas Centro do Autismo aplica o Programa Brincar: Onomatopeias, Pareamento Som-Imagem e Desenvolvimento da Imitação Oral, idealizado pela fonoaudióloga e analista do comportamento Dra. Elisabeth Crepaldi, com o objetivo de apoiar famílias e profissionais no estímulo à comunicação funcional desde os primeiros repertórios.
Brincar, linguagem e desenvolvimento infantil: qual é a relação?
O brincar é uma das principais formas de aprendizagem na infância. É por meio dele que a criança explora o mundo, aprende a se comunicar e constrói significados.
No caso de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o desenvolvimento do brincar simbólico e da linguagem pode ocorrer de forma diferente, exigindo intervenções estruturadas, intencionais e baseadas em evidências científicas.
O Programa Brincar foi desenvolvido justamente para respeitar as fases do desenvolvimento infantil, promovendo avanços graduais e seguros nas áreas de:
- Comunicação
- Linguagem
- Imitação
- Interação social
O que é o pareamento som + imagem + objeto?
Um dos pilares do programa é o pareamento de estímulos, ou seja, a apresentação simultânea de:
- Um som (onomatopeia),
- Uma imagem ou objeto concreto,
- E o modelo oral do adulto.
Esse pareamento favorece a associação entre o que a criança vê, ouve e observa no movimento da boca do outro, criando bases sólidas para a imitação motora oral, considerada um pré-requisito essencial para o desenvolvimento da fala.
A imitação motora oral na Análise do Comportamento
Dentro da Análise do Comportamento e do Comportamento Verbal, conforme proposto por B. F. Skinner, a imitação motora oral é entendida como um repertório básico para a aquisição dos operantes verbais, especialmente:
- Tato (nomear o que vê)
- Mando vocal (pedir, solicitar)
Sem esse repertório inicial, a aquisição da fala torna-se mais difícil e menos funcional.
Por que as onomatopeias são tão importantes?
No Programa Brincar, a escolha das onomatopeias não é aleatória. Do ponto de vista técnico, nem todo som é indicado para iniciar o processo de intervenção.
São priorizadas onomatopeias que envolvem fonemas:
- Mais visíveis
- Mais audíveis
- Mais fáceis de serem produzidos
Por isso, o programa trabalha principalmente com:
- Vogais abertas
- Consoantes bilabiais e nasais: /m/, /p/, /b/
Esses sons são mais acessíveis do ponto de vista motor e perceptivo, favorecendo o ensino sem erros e respeitando a progressão do mais simples para o mais complexo.
Sons mais posteriores ou complexos de serem articulados, como “quacá”, “cocó” ou “rinc”, exigem maior controle motor e não são indicados como primeiros alvos de intervenção.
Procedimento básico de aplicação do Programa Brincar
O programa pode ser utilizado por terapeutas, pais e cuidadores, desde que respeitada a orientação técnica. De forma geral, o procedimento envolve:
1. Apresentar a figura ou objeto próximo à boca do adulto, facilitando a observação do movimento oral.
2. Emitir o som de maneira clara e bem articulada, sem exageros que possam distorcer a produção.
3. Reforçar a atenção visual da criança.
4. Caso a criança imite o movimento oral ou vocalize, reforçar imediatamente com entusiasmo, alegria e interação positiva.
O reforço emocional é parte essencial do processo, pois aumenta a motivação e fortalece o vínculo comunicativo.
Um convite ao desenvolvimento com intencionalidade e afeto
O Programa Brincar foi criado para ser mais do que um recurso terapêutico: ele é um convite à interação, ao vínculo e à construção da comunicação funcional, respeitando o ritmo e as singularidades de cada criança.
Quando o brincar é orientado por ciência, intencionalidade e afeto, ele se transforma em uma poderosa ferramenta de desenvolvimento.
